
A cicatriz não é a história inteira: quando a tatuagem muda a cena
Às vezes, ela chega acompanhada de um cenário silencioso. Uma cirurgia, um acidente, uma doença, uma perda. Um período em que o corpo passou por alguma coisa que deixou uma marca visível, mesmo depois que a vida seguiu.
E, por muito tempo, aquela marca pode parecer ocupar o centro da cena.
Até que a cena muda.
A pessoa muda. O tempo passa. E, junto com tudo isso, pode mudar também a maneira como ela olha para o próprio corpo.
É nesse momento que a tatuagem pode entrar em cena.
Não necessariamente para esconder a cicatriz. Muito menos para apagar o que aconteceu. Mas para mudar o lugar que aquela marca ocupa dentro daquela história.
Porque ninguém deveria ser refém de um marco que ficou na pele.
A cicatriz pode continuar ali. Ela faz parte da história. Mas não precisa continuar sendo a protagonista.
Gosto de pensar que, em algumas histórias, ela pode até virar figurante. Continua presente, mas já não conduz a narrativa.
Existe uma frase que gosto muito e que traduz bem essa ideia: “Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes.”
Porque existe uma diferença enorme entre carregar uma marca e ser definido por ela.
Uma cicatriz pode contar alguma coisa sobre o que vivemos, mas ela nunca vai conseguir contar tudo sobre quem somos.
E talvez seja justamente aí que começa a ressignificação.
Não quando tentamos apagar o passado, mas quando percebemos que ainda podemos escolher o que fazer com a nossa história daqui para frente.
Quando falamos em tatuagem sobre cicatrizes, é comum pensar imediatamente em cobertura. Em esconder. Em fazer desaparecer.
Mas nem sempre é disso que estamos falando.
Às vezes, a ideia é transformar.
Uma flor pode nascer sobre uma cicatriz. Um desenho pode acompanhar o formato de uma marca. Um elemento pode ocupar aquele espaço e fazer com que os olhos encontrem outra coisa antes de encontrarem aquilo que um dia trouxe dor.
A cicatriz continua ali.
O que muda é a cena.
E ressignificar não significa fingir que nada aconteceu. A história continua existindo. O corpo continua carregando suas marcas. Mas aquela região pode ganhar um novo significado.
Por isso, esse tipo de tatuagem começa muito antes da agulha.
Começa com uma conversa.
É preciso olhar para aquela pele, entender o tecido, o tempo de cicatrização, as características da cicatriz e, principalmente, ouvir a pessoa que está ali.
Porque antes de existir um desenho, existe uma história.
No meu trabalho com o projeto Ressignificando Cicatrizes, encontro muitas mulheres justamente nesse lugar. Mulheres que chegam querendo transformar uma região do corpo e, muitas vezes, acabam falando também sobre autoestima, liberdade, sobre voltar a usar determinada roupa, olhar no espelho ou simplesmente tocar aquela parte do corpo sem sentir vontade de escondê-la.
É por isso que algumas tatuagens carregam um significado tão diferente.
Elas não estão ali apenas para enfeitar.
Elas estão ali porque alguma coisa mudou.
Às vezes, a cicatriz permanece exatamente no mesmo lugar. Mas a pessoa já não se relaciona com ela da mesma maneira.
E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de ressignificar uma marca.
Não apagar o que aconteceu.
Não negar a história.
Mas permitir que aquela história deixe de ser o fim da narrativa.
A cena muda.
E talvez a cicatriz continue ali, no mesmo lugar, fazendo parte do cenário.
Só que agora ela já não ocupa o centro.
Porque algumas transformações acontecem na pele.
Mas as mais importantes, talvez, aconteçam na forma como a gente volta a se enxergar.
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